Há pouco mais de três anos, a Enter nem sequer existia. Criada em 2023, inicialmente com o nome Talisman, a legaltech brasileira fundada por Mateus Costa-Ribeiro, Henrique Vaz e Michael Mac-Vicar nasceu de uma aposta relativamente simples: aplicar inteligência artificial a um dos maiores e mais dispendiosos entraves do mercado jurídico, o contencioso de massa. Mateus, advogado desde muito jovem e admitido numa Ordem dos Advogados norte-americana, passou por Harvard e Stanford e começou a gerir a empresa enquanto ainda frequentava um MBA na Califórnia. Em dezembro de 2023, a startup faturava cerca de R$ 80 mil por mês.
O que se seguiu aconteceu a um ritmo pouco habitual, mesmo no setor tecnológico. Em 2025, a Sequoia Capital e o Founders Fund investiram US$ 35 milhões na Enter, avaliando-a em cerca de R$ 2 mil milhões. Menos de um ano depois, em maio de 2026, uma nova ronda de financiamento, superior a US$ 100 milhões e liderada pelo Founders Fund, elevou a avaliação da empresa para US$ 1,2 mil milhões. A Sequoia, a Ribbit, a Kaszek, a ONEVC e a Atlantico também participaram. Em pouco mais de dois anos, uma legaltech brasileira tornou-se um unicórnio e juntou-se a um grupo restrito que inclui a Harvey e a Legora.
Os números ajudam a explicar o entusiasmo dos investidores. Entre as duas últimas rondas, segundo a empresa, as receitas cresceram mais de dez vezes, a carteira de clientes triplicou e mais de 300 mil processos por ano passaram a ser tratados através da Enter. Nubank, Mercado Livre, LATAM, Bradesco, Airbnb, iFood e Santander estão entre as mais de 40 grandes empresas que utilizam a sua tecnologia.
Mas talvez a parte mais interessante desta história não esteja na avaliação da empresa. Está na falha de mercado que a Enter identificou. Poucos países oferecem matéria-prima tão abundante para uma legaltech dedicada ao contencioso como o Brasil: elevada litigiosidade, processos repetitivos, departamentos jurídicos pressionados pelos custos e sociedades de advogados que criaram estruturas inteiras para gerir grandes volumes de processos. A tese dos primeiros investidores da Enter era precisamente essa: utilizar grandes modelos de linguagem (LLM) e fluxos de trabalho para executar parte dessas tarefas por uma fração do custo das estruturas tradicionais. Mais do que vender software, a ideia era vender trabalho realizado por software a preços reduzidos.
É aqui que começa a parte desconfortável da história. A Enter não se apresenta como uma sociedade de advogados. A sua plataforma reúne e analisa documentos, integra elementos de prova externos, identifica padrões e possíveis fraudes, realiza análises jurimétricas e apoia a redação de textos. A estratégia e a decisão jurídica continuam a caber aos departamentos jurídicos e aos advogados. Mas a fronteira económica é menos nítida. Cada atividade que a tecnologia absorve é uma atividade que, até ontem, tinha de ser realizada e cobrada por alguém.
Talvez por isso o crescimento da Enter também suscite alguma inquietação no mercado jurídico. A discussão não se resume a saber se a inteligência artificial vai substituir os advogados — um debate que, aliás, começa a tornar-se cansativo. A questão mais interessante é perceber quem ficará com o valor económico do trabalho que a inteligência artificial tornou automatizável. Durante décadas, uma parte relevante da chamada advocacia de «massa» assentou o seu modelo em pessoas, horas, processos, modelos documentais e escala. Se uma plataforma consegue executar uma parte substancial dessa operação através de tecnologia, não está apenas a vender uma ferramenta aos advogados: está a disputar uma parte do orçamento jurídico do cliente. Por isso, o fenómeno Enter despertou o interesse dos investidores: trata-se de uma empresa que conseguiu aceder diretamente aos avultados orçamentos jurídicos das grandes empresas, num mercado muito maior do que o das simples subscrições de software. Isso ajuda a explicar, ao mesmo tempo, a avaliação de milhares de milhões e o desconforto provocado por modelos desta natureza. Pela primeira vez, talvez a principal concorrência de determinadas sociedades de advogados não venha de outra sociedade, mas de uma legaltech com a roupagem de uma sociedade de advogados.
A pergunta, portanto, não é saber se a Enter está a ocupar o espaço das sociedades de advogados. É outra: terá a Enter preenchido uma lacuna de mercado à qual o modelo tradicional não consegue dar resposta? Se tarefas repetitivas, previsíveis e que exigem um tratamento intensivo de informação podem ser executadas de forma mais rápida e económica por inteligência artificial, talvez a verdadeira mensagem deste primeiro unicórnio brasileiro de IA para a advocacia seja menos tecnológica do que estratégica: daqui para a frente, será cada vez mais difícil cobrar como trabalho jurídico aquilo que uma máquina consegue tratar como um processo.
E a sorte está lançada neste complexo jogo de tabuleiro. Recentemente, a Ordem dos Advogados do Brasil anunciou uma ofensiva contra estes modelos de negócio, liderada por sociedades de advogados afetadas pelo espaço que a Enter tem vindo a conquistar. A Enter contra-atacou: constituiu um Conselho de personalidades de peso, com um antigo ministro do Supremo Tribunal Federal, a mais alta instância judicial brasileira, um jurista conceituado e até uma conhecida figura de campanhas publicitárias. Entre movimentos ensaiados e jogadas estratégicas, resta saber quem será o primeiro a dar xeque-mate.